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16 de abril de 2026

Até o Chão se Torna Mesa


 

Não — o vinho não foi criado para o couro, e ele sabe.

Plantar, colher, esmagar: eis o caminho.
Mas o mistério é fermentar no escuro,
onde a vida trabalha em silêncio.

O odre tem sua utilidade:
guardar aquilo que jamais produziu.
O problema é que, às vezes, ele esquece.
Esquece que existe por causa do vinho —
e não o contrário.

E, como consequência, endurece:
fecha-se, olha só para si,
se protege como se fosse o milagre.

Com paciência, o vinho espera.
Respira. Expande. Vive.
E quando a vida cresce,
nenhuma estrutura a contém para sempre:
romper torna-se inevitável.

Não por rebeldia,
mas por fidelidade à vida.

O vinho sabe: não nasceu para viver preso.

E Deus?
Ah, Deus sempre preferiu o sabor da vida
à integridade impecável do recipiente.

Talvez por isso, às vezes, Ele propicia o rompimento —
não para destruir o odre,
mas para lembrar que a vida é prioridade.

Sim, a estrutura tem seu valor,
mas o Amor não cabe em costuras velhas.

E, no fim, quando o vinho verdadeiro rompe
o que não o deixa viver,
até o chão se torna mesa.