Não — o vinho não foi criado para o couro, e ele sabe.
Plantar, colher, esmagar: eis o caminho.
Mas o mistério é fermentar no escuro,
onde a vida trabalha em silêncio.
O odre tem sua utilidade:
guardar aquilo que jamais produziu.
O problema é que, às vezes, ele esquece.
Esquece que existe por causa do vinho —
e não o contrário.
E, como consequência, endurece:
fecha-se, olha só para si,
se protege como se fosse o milagre.
Com paciência, o vinho espera.
Respira. Expande. Vive.
E quando a vida cresce,
nenhuma estrutura a contém para sempre:
romper torna-se inevitável.
Não por rebeldia,
mas por fidelidade à vida.
O vinho sabe: não nasceu para viver preso.
E Deus?
Ah, Deus sempre preferiu o sabor da vida
à integridade impecável do recipiente.
Talvez por isso, às vezes, Ele propicia o
rompimento —
não para destruir o odre,
mas para lembrar que a vida é prioridade.
Sim, a estrutura tem seu valor,
mas o Amor não cabe em costuras velhas.
o que não o deixa viver,
até o chão se torna mesa.

